quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Este texto é excelente... mas realmente o mundo não está preparado.... tirei-o de uma página da "Fabrica de Escrita" porque não resisti. Quero guardar algures onde o possa ler sem me fazerem perguntas... este é o lugar ideal....





"Um dia dou-te um beijo, mas não é agora. O mundo não está preparado para mim- e os teus lábios também não. Está demais ficar aqui contigo à porta de tua cas...a. Pena não poderes mais do que isto. A escrita tem esta magia: a capacidade de transformar f' s em p's. Podes-me toda. E está demais. Melhor estar à porta de tua casa do que ter uma casa à tua porta. A tua mulher não ia gostar muito, pois não? Está demais, assim. Dizer-te que, para mim, o bom da vida é vivê-la em poliamor. E tu sorris. Sem perceberes bem o que é isto do poliamor, mas sorris. Deixa-me lá preparar mais um charuto que eu explico-te tudo enquanto fumamos.

Poliamar é amar toda a gente sem amar ninguém. O amor só faz sentido se for consentido. O amor sente-se. O poliamor consente-se. É poliamar-te na casa de banho da empresa, e ir jantar com o Nuno, logo à noite, sem precisar de pedir autorização; é poliamar-te nos bancos do carro e acelerar para os braços do Freitas; é poliamar-te de manhã e almoçar com o Manel numa praia da Caparica; é poliamar-te nas matinés de domingo e dormir em casa da Ecas…na cama da Ecas. Poliamar é sair e nunca voltar pelo mesmo caminho. E tu sorris. Compreendes-me tão bem. Gosto de ser eu quando estou contigo. E é tão esgotante ser eu, às vezes. Ser criticada por dançar na rua, por abraçar toda a gente, por atiçar os homens com conversas picantes, sinto-me bem quando me desejam e param os olhos no meu rabiosque. É tão esgotante ser eu. Quando chegar já tenho interrogatório. O costume, portanto. Onde, por que, com quem, porquê, até que horas. Ninguém está preparado para mim. Só tu, não é? É por isso que um dia vou dar-te um beijo, mas não é agora.
Ai, que me deu uma palpitação. Deve ser de estar feliz. Está demais. És demais. Sabes, às vezes imagino a cena de irmos a conduzir, eu no meu Corsa, tu no teu Golf, a chuva cair, a cidade inundada, ficarmos empanados e irmos na enxurrada. Os melhores amores são assim, vão na enxurrada e ninguém conseguir desempaná-los. Já agora, queres empanar-te comigo? Desculpa, desculpa. Isto está a bater um bocadinho. És tão querido que te fumava todo. Mas não é agora. Vou andando, está bem? Já não sorris como sorrias. É a tua mulher a ligar. Por acaso ela não alinharia numa brincadeira a três, não. Esquece. Vai lá. O mundo não está preparado para mim- e tu também não. Ainda não."



Fabrica de Escrita